Publicado por: horusviana | 08/06/2008

A freira e o terço macumbado-parte 1

Ontem o povo aqui de casa encontrou na rua aquilo que devia ser um terço muito grande. Um rosário, como o católicos chamamos. “Devia ser” porque, inteiro mesmo, só umas trinta ave-marias restaram juntinhas nos seus lugares, de dez em dez. Um rosário tem 150!!! São, na verdade, 5(terço)x3(terços)=15 mistérios com dez bolinhas cada.  Matemáticas à parte.
Não podia ser diferente, começamos a tentar “descobrir” de quem era o objeto. Bom, cá pra mim eu estava pensando que achado não é roubado, e até comecei a tentar endireitá-lo, mas deu muito trabalho – mais até do que rezar.
“Deve ser de uma freira gordinha que passa aqui em frente todo dia.” – minha madrasta.
À parte os comentários piedosos, ficamos sacaneando a ligação daquilo com a macumba, tinha que ser. Fiquei ali investigando a origem: tinha na ponta, no lugar da cruz tradicional, um medalhão ex-oval, disforme e ilegível, no que dava pra reconhecer uma figura de um capuchinho – pelo menos um corcunda com um chapeuzinho na túnica – bem gasto. “Deve ser João Paulo II”. Ali, realmente, não parecia preto véio da cachaça.

Ficamos também imaginando as contas que a freira fazia com aquelas contas: “Esse terço é bom pra enganar a reza. Reza duas Ave-Marias, três, oito no máximo.” Em alguma outra parte tinha escrito um “Italy” miúdo, de onde veio a conclusão brilhantíssima:

“Deve ser de família…”. Veio uma galera pra comprovar. “Família Adams!”, terminei.

Em cima, juntando as partes, a imagem de Maria, de ponta-cabeça. Era a prova cabal. Desde muito tempo, uma cruz ao contrário, um pentagrama invertido, a suástica alemã (cruz gamada invertida) só significam uma coisa. “ISSO É OBRA DE MACUMBARIA!!!!

…………………………………………………………………………………………………

Obra de macumbaria: o bordão me acompanha desde que apanhei um apanhado de uma conversa de ônibus; duas mulheres falando das igreja, as duas com os filhos no xadrez. A mais faladeira com uma voz abaianada me deu a graça:

“Você leeeembra, fulana, aquele dia que você entrou na minha casa, quando você passou na porta do meu quarto, o espelho quebrou inteirinho no chão???” Imaginei: que feiúra poderosa, tá amarrado, mas continua, senhora… “te faleeeei, fulana, tiii faleeeei! ISSO FOI OBRA DE MACUMBARIA QUE FIZERAM PRÁ VOOOCÊEEE . As treva não se dá com a luz nãaaaoooo”

Crente tem essa mania mesmo. O encapetado é sempre o outro. Mesmo se o outro for crente… mas valeu, ganhei o bordão. Porque crente também tem bordão pra tudo: “Tá amarrado” “Sangue do Cordeiro” “Quebra” “Queima” “sai desse corpo que ele não te pertence (ou pertence mais, pros definitivamente possuídos)” e até “Nossa Senhora” escapa.

………………………………………………………………………………………………………

Larguei de imediato a Obra, demos as gargalhadas finais – já se esperava, como se vê, o meu bordão – e demos o caso por encerrado. Fiquei apenas remedando os arames. Ali até alfinete tinha pra remedar, ô pobreza! Mas tava até apreciando o medalhão velho…

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Categorias

%d blogueiros gostam disto: