Publicado por: horusviana | 05/01/2009

Margarida

*texto que escrevi como proposta de redação lá pelos tempos que plantaram a vara que um barbudão usou ao abrir o Mar Vermelho.

Margarida! Quem ela pensa que é? Eu tinha combinado com aquela ingrata de levar ela pra festa, e olha que eu ainda estava fazendo um favor àquela… àquela…

Lembrou-se, e mediu bem as palavras que escreveria em seu diário sofredor. Há dois verões que fora ao sítio dos avós de Margarida, desfiou sem a menor cerimônia:
– … puta!!!

A vovó, mas muito moderninha, pedagoga, etcetera e tal, não perdeu tempo: Minha filha, você sabe o que é puta? Não vovó! Puta é uma mulher que vende o corpo pra todos os homens, dorme com eles e vive perambulando pela rua à noite com aquelas roupas vulgares, prostituta, piranha. Nossa, vovó, nunca mais vou falar isto não!!!

… àquela pirralha!!!
Com aquelas tranças e rosto cheio de sardas marrons, mais parece uma daquelas meninas de reclames de margarida (ou melhor, margarina). Passa os dias de manhã ajudando a sua mãe, e ainda cantarolando aquelas cantigas de roda como se ainda não fosse pré-adolescente. Ainda não tinha um soutien (é assim que escreve mesmo, esqueci de te contar, peguei escondida a revista da mamãe), e só sabia ficar sonhando se teria peitos de limão ou de mamão como di mamãe, enquanto cuidava do pomar. Eu não mereço, mas como é que pode eu ter uma amiga assim! Disse que precisou pedir tanto à mãe para ir à festa, e quase ela não deixou, e ainda veio para cá tão cedo como se estivesse pronta pra se melar no quintal catando flor.

Não quis nem saber: desfiz aquelas tranças de bem-me-quer, troquei aquelas roupas horríveis e escolhi uma que eu achei que ficava bem nela. Passei até maquiagem! Tinha que ver! Ou você acha que eu ia deixar ela me envergonhar assim na night?
Aí ela na saída inventa que não ia mais à festa, que não queria ir e pronto, que eu não podia fazer nada, que não ia entrar naquele táxi. Estragou minha roupa na chuva, margarida despetalada, margarida murcha, correndo na chuva pra casa de mamãe. Garanto que foi culpa daquela aula, a professora dizendo que mulher tem que ter atitude, e se agora tinha personalidade, então já era mulher… eu hein!

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